Quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

Desassossego...

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(.)Excertos (.)

"O coração, se pudesse pensar, pararia."

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir."

"Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quanto me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamentamente."


in Livro do desassossego, Fernando Pessoa,

Peace&lobe
Freak freak às 02:04
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6 comentários:
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 18:45
Ora aqui está... Livro do Desassossego. Bernardo Soares.

Fantástico, não?

Eu adoro este fragmento...

"Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, d ecaso pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.
Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a falta de afeição merecida pelo intruso.
Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa íntrisica ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involutariamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.
Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.
Não sei se sofra com isto. se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.
Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Orfão da Fortuna, tenho, como todos os orfãos, a necessidade de ser objecto da afeição de alguém. Passei sempre fome de realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.
Com isto ou sem isto a vida dói-me.
Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive sequer quem pensasse em se me dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.
Reconheço em mim a capacidade de provocar o respeito, mas não afeição. Infelizmente não tenho feito nada com que justifique a si próprio esse respeito começado quem o sinta; de modo que nunca chegam a respeitar-me deveras.
Julgo às vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferia outra coisa.
Não tenho qualidade de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem.
Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes.
Talham melhor a sua vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar.
Se um dia amasse, não seria amado.
Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim."

Bernardo Soares


Está no meu blog... passa a publicidade, lool,

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De Anónimo a 11 de Setembro de 2005 às 20:17
fernando pessoa é lindo... simplesmente lindo...
e florbela espanca??? isso sim... nem tenho palavras para descrever... AMO!!!!
beijuuuuuu lindaaaaaaaaaaaaaa********* qd dás noticias? lol!bLaCk_LillY
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De Anónimo a 8 de Setembro de 2005 às 01:11
olá, Fernando Pessoa é uma boa escolha, é um dos que leio.
Abri um novo blog para as minhas poesias http://zezinhoeseuspoemas.blogs.sapo.pt
para substituir o http://zezinhomota.blogs.sapo.pt
que entretanto vai continuar em poesia, mas dos outros. Fica bem, boa semana zezinhozezinho
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(mailto:zezinhomota@sapo.pt)
De Anónimo a 3 de Setembro de 2005 às 01:22
Eu até lia o teu blog, mas sabes como é.. eu não uso óculos e as letras são... como hei-de dizer... "muntooooo piquenas.. mas muntooo piquenas mesmo!" lololol Gande bj pa minha eterna companheira de copos! ;) *******Louco
(http://soumaluco.blogs.sapo.pt)
(mailto:soumaluco@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Setembro de 2005 às 20:19
Gostas de expessar as tuas opinioes?? E de saber a openiaio dos outros?? De várias pessoas?? entao, vai a: http://jolly.blogs.sapo.pt e deixa 1 comentario. Espero a tua visita. (Ah, é sobre o que quiseres, TU é escolhes o topico do texto.)ApareceRita
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(mailto:anjo_detestavel@hotmail.com)
De Anónimo a 2 de Setembro de 2005 às 18:43
Pensamos nós, ao longo da puta da vida, que sabemos, supomos ou adivinhamos, o que é a solidão. Não. Nada disso. Não se define. O mais aproximado que consigo, é dizer que é um estado de espírito em que nem connosco próprios estamos. E pode ser irreversível. O fosso está cada vez mais fundo. A vida, lá em cima. Cada vez mais lá em cima. E cá vou eu, por aqui abaixo, em parafuso, tonto de empurrões que, apesar de bem intencionados, vão empurrando cada vez mais para o fundo do fundo. Já vi o que está em cima. Nem tenho curiosidade de ver o que está lá em baixo. Só quero fechar os olhos.
Palavras de conforto e resignação, não, por favor. Sei que vocês não me fazem isso.
Abro a porta. Estou. Fecho a porta. Vou. De onde? Para onde?
Isto é o desespero, meus amigos. De quem se agarrou à vida. De quem se quer ir embora. Depressa, muito depressa. Que me chamem cobarde. Que me chamem egoísta. Os sentimentos são de cada um de per si. O que dizemos dos outros é uma defesa para nós. Não estou a falar dos outros.
Estou, apenas. Para aqui...lsd25_
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(mailto:lsd25@portugalmail.pt)

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